Engano.

Pensei que sair de um mundo de fantasia e ativamente começar a viver, fosse me tornar feliz. Feliz até sozinha, sabe, quando os outros estiverem longe e restar algum tempo de conversa comigo mesma. Mas no fim das contas, é tudo a mesma coisa. Não me sinto melhor agora do que me sentia escondida em um fake, e nem sei se me sentiria melhor se continuasse vivendo através dele. Agora a vida é minha, sou a dona de minhas atitudes; é o meu rosto que aparece quando ajo, e sou apenas eu a responsável pelas consequências que virão. Não existem nomes e fotos falsos, nem relacionamentos baseados nisso. Não existe a namorada, aliás.Talvez ela tenha ficado pra trás quando eu comecei a viver. Muita gente ficou, junto de muita coisa. Pessoas e coisas que não voltarão. Espero encontrar logo pessoas e coisas pra ocupar o vazio que ficou em mim.

Saudades.

Um nó grosso e forte se formou em minha garganta nas duas vezes em que mencionaram aquele fato… Ele já estava em minha mente desde o início, mas ouvi-lo faz com que a verdade se torne latente aos meus ouvidos.

Ela se orgulharia de mim se estivesse aqui. E quem sabe choraria de emoção, me abraçaria, diria que sempre soube que eu conseguiria ou… Quem sabe? Nunca saberei. Eu sei que ela está feliz por me ver onde sempre quis. Vó, por mais que as lágrimas façam meus olhos arderem e molhem meu rosto, não há qualquer tristeza em qualquer uma delas. Há apenas a saudade, a vontade que tenho de tê-la comigo. E a cada vez que eu ainda chorar, será saudade e nada além. Saudade que dá aquele aperto que incomoda, e não mais faz doer. A vontade que sinto em abraçá-la e ouvi-la rir é tão intensa quanto a saudade que me preenche agora, e que sempre fará parte de uma boa parcela de mim.

Eu devo a ti tudo o que sou hoje. Eu te amo.

Viver.

Não vou sobreviver à faculdade, vou vivê-la. Da melhor forma que eu conseguir. Se não a mais intensa, regada à festas, bebida, garotos ou garotas, ao menos será a mais especial. Aqueles anos em que eu finalmente farei o que escolhi pra mim, pra toda uma vida. E eu amo isso.

Me acostumei a encarar as diferenças de classe social como algo que simplesmente está ali, mas que não impõe barreira alguma entre eu e eles. Vi que há pessoas como eu, dando duro pra estudar, sabendo que não poderiam arcar com sequer um mês daquela faculdade. Financeiramente falando, é claro. Eu tenho a obrigação de ser melhor, pra me manter ali. E eu serei, darei o meu melhor. No fim das contas, eu amo muito tudo isso.

Yes, I can.

E no fim das contas, a pressão não é tão grande. Ou se é, sou uma garota crescida o suficiente pra lidar com ela. Comecei a faculdade e, mesmo sem ter feito colegas, sinto-me feliz. Não faço parte da vida pop da sala e muito menos da faculdade, mas ali estou eu. A garota que entrou pelo PróUni, calada, até isolada. Mas eu estou bem ali, pra quem quiser ver. E eu estou bem.

Uma discussão com Vitória começou a semana, uma discussão com Fabiana a terminou. E aqui estou eu, bem, com inúmeros textos lidos, conceitos absorvidos. E bem, eu estou bem. Estou fazendo isso acontecer, e vou continuar fazendo.

Detesto terminar uma semana e começar outra fazendo contas, sem saber se a grana vai dar, calculando quanto posso gastar, quanto tenho, quanto preciso. A senha do meu cartão foi bloqueada, então a menos que ele já esteja pronto, não sei quando saberei o saldo dele. Pra comer, apenas mais 4 dias. Pra transporte, tenho a semana toda. Pros xerox, tenho apenas pro começo. O dinheiro só entra dia 5, o governo… bem, sabe-se lá quando deposita algo. Meus planejamentos financeiros podem não dar tão certo se tudo não ocorrer como preciso que seja, mas vamos ver no que dá. Mas ali estou eu, afinal; a primeira da família a entrar na faculdade.

Sou o orgulho da mãe, do pai, quem sabe do irmão. Minha avó… Esta com toda a certeza está sorrindo onde quer que esteja, por me ver onde eu sempre quis chegar. E ela me abençoa e me ajuda, eu sei que sim. E eu me sinto tão grata e tão bem, mas tão bem.

Ainda tenho minhas dúvidas e vontades. Porém, pra resolvê-las, é necessário muito mais do que escrever em um blog. E quem disse que a coragem chegou pra isso?

She.

No sei se consigo lidar com a pressão de alguém que é tão dependente de mim. Talvez eu saiba sim como lidar, só não queira. Ela precisa ter a própria vida, os próprios sonhos e objetivos. Ninguém vive sem uma meta a alcançar. E quando vive, como eu vivi por algum tempo, não é viver. É só estar ali acordada todos os dias, fazendo as mesmas coisas, sem nunca pensar no que fará depois disso.

Quero poder viver a minha vida enquanto ela vive a dela, e ficar ao lado dela, finalmente, quando o destino assim permitir. É o que eu quero, mas e a coragem de dizer?

Finalmente.

Matriculada. O termo de concessão da bolsa está dentro de um envelope aqui perto, logo logo vou lê-lo inteiro. Qualquer coisa que faça o tempo passar mais rápido pra que eu comece logo, é válida. Mal acreditei quando peguei meus horários, minha sala (mesmo que digam que é a mais chata), meu RA. Finalmente consegui, estou dentro.

Precisarei de toda a ajuda e de toda a sorte agora. Estou contando as moedas, mas me sinto feliz por poder estudar, ter a oportunidade que ninguém em minha casa ou família teve. E eu vou orgulhá-los, e muito. Obrigada, Pai.

Ansiosa.

Sei que só vou acreditar quando estiver com meu horário de aulas em mãos, a pasta arrumada, a bolsa pronta e o passe escolar no bolso. Não sei, soa tudo tão como um sonho, que só acreditarei quando finalmente a rotina de universitária vier à tona.